sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

LINGUAGEM CORPORAL

Quando um gesto vale mais que mil palavras




Inspirada pelo último livro do qual fui redatora, Linguagem do corpo, e por minha verve “bailarinística”, a qual me levou a enxergar as nuances de significado imbuídas nos gestos que expressamos, decidi postar uma pequena coletânea de pequenos versos que criei e recriei para tal publicação. Afinal assim como uma imagem, por vezes, um gesto vale mais do que mil palavras e sempre vale a pena nos lembrarmos de que...

QUANDO A BOCA CALA, O CORPO FALA E...



APRENDER A LER O CORPO É APRENDER A LER O QUE AS ENTRELINHAS DA ALMA OCULTAM... PORQUE...
É MAIS FÁCIL SILENCIAR A BOCA DO QUE O CORPO. ESTE, INDEPENDENTEMENTE DE NOSSA VONTADE, EXPRESSA O QUE SENTIMOS E O QUE, POR VEZES, EVITAMOS DIZER A NÓS MESMOS, TAL QUAL UM JORRO D’ÁGUA CUJA FORÇA É IMPOSSÍVEL CONTER, DE MODO QUE...

O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta sufoca quando não é possível
expressar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as dúvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a criança interna tiraniza.
A febre esquenta quando as defesas detonam
as fronteiras da imunidade.

E NÃO SE ESQUEÇA DE QUE...

Há mais no jogo do me curvo, recuo; me aproximo, distancio, do que possa imaginar nossa vã filosofia pois...





BRAÇOS ABRAÇAM,
BRAÇOS REJEITAM,
BRAÇOS ACOLHEM,
BRAÇOS AFASTAM,




E as mesmas

MÃOS QUE AJUDAM,
QUE ORAM,
QUE AFAGAM,
SÃO AS QUE APARTAM.





E na dança da sedução quanto mais...

TE OLHO,
TE QUERO,
ME MOSTRO,
TE ESPERO,
TE...


Você caminha em minha direção, passos largos, firmes, firmes
demais - ombros tesos, braços rijos, olhar duro, sobrancelhas
levemente arqueadas, maxilar cerrado.
Ao nos aproximarmos, meneio a cabeça; você, que sempre me
recebera com um abraço caloroso,mantém uma distância segura
e estende o braço em minha direção, polegar em riste.
Enquanto respondo ao cumprimento, recordo-me de nosso
último encontro: uma conversa cheia de farpas, críticas, entremeadas
por silêncios constrangedores.
Sua mão abarca a minha; palma voltada para baixo. A minha se
submete coberta de suor frio. Há em meu interior um tremor quase
imperceptível. Sem uma palavra sequer, como se nunca tivéssemos lá nos encontrado,
você indica com um gesto a direção de sua sala.
Entramos. Os móveis estão em outra posição: sua mesa, agora,
voltada para a porta de entrada. Por um instante hesito.
O tempo estaciona. Mais uma vez, com um gesto apenas, me “diz” onde devo me sentar.
Ao acomodar-me, mantenho o olhar parado em direção ao centro da mesa, tronco arqueado,
mãos sobre o colo, úmidas; o suor começa, então, a brotar em minha fronte. A única coisa que
me prende ao momento são os pés unidos, agarrados ao chão.
Ergo o olhar. Você está à minha frente, sentado
do outro lado da mesa, recostado, braços cruzados, perscrutando minha alma.
De repente, por instinto, inclino o tronco à frente, apoio os cotovelos
sobre a mesa, coloco as mãos juntas sob o queixo, inclino
a cabeça para a direita e com um meio-sorriso pergunto:
“Como vai?”.

Cláudia S. Coelho


PS: O objetivo do texto acima é mostrar o quanto pode ser dito sem que uma palavra seja expressa. No entanto, caso alguma das mensagens implícitas em algum dos gestos citados acima não tenha ficado claro, entre em contato com claucoelho@uol.com.br. Terei o maior prazer em responder a suas dúvidas. 
E, caso queira conhecer mais sobre o universo da linguagem corporal, leia o livro Linguagem do corpo a ser lançado nas bancas pela Discovery Publicações. 





terça-feira, 26 de novembro de 2013

GOGÓ DA EMA

“Ema, ema, saquarema, cada um com seus ‘pobrema’”. Nem pensar!!!!!!!!

Convido-o a ler o poema e a crônica abaixo e a expressar sua opinião.




O famoso coqueiro "Gogó da Ema" nos idos de 1950




Ema, Ema, Saquarema,
ofereço-te um poema.

Que força te deu a forma
que até os sábios desafia,
que te distingue no horizonte,
e de tuas irmãs te distancia.

Ema, Ema, Saquarema...

Altiva, aos ventos resistes,
intempestiva, lança-te ao mar,
elegante, te destacas,
sem querer, nem pensar.

Ema, Ema, Saquarema...

Teimosa e irreverente, 
és filha pródiga resoluta,
ousada abre caminhos,
sem querer, nem ponderar.


Ema, Ema, Saquarema,
guardo-te em um poema.

Paisagem perdida no tempo,
de ti só resta lamento,
suspiro em contratempo,
melancolia sem contento.
Cláudia S. Coelho



Em virtude de meu trabalho atual, tenho tido a sorte de travar contato com professores, acadêmicos, pesquisadores, amantes da escrita... de todo o Brasil - idealistas que fazem uso da palavra para expressar sua criatividade e visão de mundo – verdadeiros Cavaleiros das Letras.



A despeito da alcunha de colaboradores – pois hoje esse termo tornou-se um eufemismo para “funcionário” - o que a meu ver levou grande parte das editoras a inverterem os papéis, acreditando que os ditos “colaboradores” delas dependem, quando a realidade é exatamente o oposto - “O que seria dos meios de comunicação, em especial, os meios impressos se não contassem com a boa vontade desses “Dom Quixotes”?” - pessoas que, por vezes, abrem mão de um passeio em um domingo de sol, movendo “mundos e fundos” (desculpem o lugar-comum) para nos presentear com aquilo que têm de melhor – seu conhecimento.  
Bem, após meu momento político, gostaria de compartilhar com vocês um fato que só demonstra a diversidade e a riqueza cultural de nosso país.

Dias atrás, encaminhei por e-mail um texto que havia editado para um de meus colaboradores a fim de que ele o revisasse:
A partir de agora vou utilizar o termo parceiro, pois acredito que ele exemplifique a relação que tenho a maior parte de meus “colaboradores”.

Bem, meu querido amigo e parceiro das Alagoas me respondeu que apesar do “gogo na garganta” poderia atender a meu pedido. Eu, como boa paulistana, achei, a princípio que ele tivesse se esquecido de incluir o acento agudo ao termo “gogo”. Mesmo assim, fiquei encafifada: gogó (palavra que, de modo geral, usamos para nos referir à garganta” não fazia sentido naquele contexto. Intrigada e movida por minha ansiedade latente peguei o telefone para falar “pessoalmente” com meu parceiro:

-Olá, Roberto. Como vai?
-Bem, tirando o gogo [gôgo] na garganta.
Acreditei que fosse uma questão de pronúncia regional, quem sabe o “ ‘gôgo’ na garganta”, não fosse uma forma de enfatizar o problema. Mesmo assim perguntei:
- “ ‘Gôgo’ ou gogó? Você não se esqueceu de acrescentar o acento agudo?
Roberto riu a valer, ou seja, riu o quanto o “gôgo” lhe permitiu e, com aquele sotaque musical dos alagoanos, como bom professor me explicou:
- É “Gôgo”, Cláudia. “Gôgo” quer dizer minhoca. Quem riu à beça, então, fui eu. Imagine o que é ter um “gôgo” passeando pelo gogó.
Fiquei com essa imagem na cabeça, até, porque, o tal do “gôgo”, no dia seguinte se instalou em minha garganta.

E, então, conversa vai, conversa vem; texto vai, texto vem, comecei a perceber o quanto o falar típico de Roberto estava presente em seus artigos e lhes imprimia um toque e uma visão singular, que eu como editora não me permiti modificar.

E qual não foi minha surpresa ao receber desse amante das letras, dias depois, um e-mail intitulado: Gogó da Ema, o qual transcrevo abaixo:
“Já ouviu falar do Gogó da Ema (gogó, com acento agudo, e não "gogo")? Foi um famoso coqueiro que fazia uma curva parecendo uma ema e seu gogó. Esse coqueiro imortalizou Maceió, foi cantado em verso, pintado, fotografado; chegou a virar nome de cachaça. Era uma curiosidade e atraiu muita gente, de vários lugares. Todo mundo queria conhecer o Gogó da Ema.



          Ficava na Praia de Ponta Verde, que, na época, era uma praia selvagem, desértica, cheia de sítios e moradias humildes de pescadores no entorno. Hoje é uma praia totalmente urbanizada, com edifícios elegantes e luxuosos em sua orla, com ruas movimentadas, lojas, restaurantes. É o chamado bairro dos novos-ricos. Você conhece logo um novo-rico, porque ele quer morar - e faz questão de morar - em Ponta Verde. 




Imagens atuais da praia de Ponta Verde



 Os poucos pobres remanescentes de outras épocas que ainda existem no bairro estão se sentindo obrigados a mudar de residência, para bairros mais distantes, porque o estilo de vida deles não combina mais com o ambiente social que se formou desde a década de 80, quando o bairro começou a se transformar. Mas você ainda encontra lado a lado edifícios luxuosos e habitações mais simples, como prova da nossa contradição social - o monstro capitalista engolindo e devorando o mais fraco...”

A história sobre Gogó da Ema exerceu tamanha impressão em mim - a ponto de publicar este post -, pois me fez lembrar a praia de São Lourenço, no litoral norte paulista, a qual conheci no final dos anos 1970. Era uma região inóspita, a qual só tínhamos acesso por trilhas de terra batida entre uma praia e outra. O único rastro de civilização do local era um casarão, construído no canto norte da praia, provavelmente uma residência de veraneio de alguma família abastada, cuja origem ainda busco descobrir.

Foto aérea da praia de São Lourenço nos anos 1970

Hoje, a antes selvagem praia de São Lourenço, transformou-se em Riviera de São Lourenço, um conglomerado anunciado como centro de glamour e ostentação e, causa-me pesar saber que a natureza exuberante do local perdeu-se entre os prédios e condomínios de luxo, perda esta que serve como alerta a todos nós - seres humanos - imersos no ter e fazer, em detrimento do ser; crentes de que da natureza não somos parte. 

A afirmação acima pode soar lugar-comum, mas vale ser lembrada, pois apesar de termos sido constantemente advertidos quanto à inversão de valores que permeia nossa sociedade e suas consequências, poucos se dão ao trabalho de rever suas prioridades. Cabe a reflexão; cabe o resgate.


Loteamento da Riviera de São Lourenço em 1988

A vida ao "ar livre e em contato com a natureza" na Riviera de São Lourenço



A um dia "pacata"  Riviera


Veja abaixo matéria que mostra a "tranquilidade" da Riviera, publicada em 9/11/201. 


Bandidos explodem 5 caixas eletrônicos em Bertioga  
Da Redação com agências
Foto(s): Divulgação / Arquivo
Arquivo Grupo @HORA

 
Um grupo composto por pelo menos 15 pessoas explodiu cinco caixas eletrônicos instalados dentro de um shopping no condomínio de luxo Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral norte de São Paulo. O crime aconteceu no final da madrugada deste sábado e a ocorrência foi registrada pela Polícia Civil às 6h30.


Boa reflexão, bom resgate, 
Cláudia S. Coelho

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

CRUZANDO A PONTE DO MERO PROFESSAR

(Ou abandonando o discurso vazio)



Dias atrás foi-me perguntado o que me motiva a ensinar. Pensei por dois segundos, não mais do que isso e respondi de imediato:

- Sei que parece lugar comum, mas é o brilho nos olhos e o sorriso nos lábios de meus alunos quando faço ou digo algo em aula - na maior parte das vezes sem intenção - que transforma sua visão de mundo, amplia sua percepção da realidade e acende a paixão pelo conhecimento.

Mas, logo em seguida, enchi-me de tristeza ao lembrar da realidade que percebo ao redor: aulas nas quais a maioria dos professores finge transmitir - na essência da palavra - conteúdos, a alunos que fingem aprender. Mais um lugar comum, mas este não poderia ser mais verdadeiro. Impera a lei do mínimo esforço.

O antepositivo “profess-” que forma o substantivo professor tem sua origem no latim e significa: 'declarar, manifestar, dar a conhecer’.  No entanto, em minha opinião, a maior parte daqueles que hoje profes-sam, pouco se importam em “dar a conhecer” e a comunicar, ou seja “por em comum” seu conhecimento. Restringem-se a um discurso vazio sem receptor, sem interlocutor, o qual ressoa nas paredes e encontra forma na fria lousa da sala de aula.

            Conheço uma psicóloga que afirma que alguns de seus ditos colegas de trabalho deveriam ser sapateiros. Sem qualquer menosprezo por estes, pois alguns são verdadeiros mestres em seu ofício gostaria de acrescentar ao comentário de minha amiga: "Alguns docentes também deveriam ser sapateiros". Lidar com pessoas, influir em sua vida, demanda diferentes habilidades das exigidas para ser um artesão - no mínimo conhecer a si para não jogar no outro suas frustrações. Imaginem como se sente um professor de redação,incapaz de produzir uma linha, ao perceber que seus alunos do ensino fundamental são tão criativos a ponto de inspirados por uma única palavra ou frase conseguir "tecer" cuidadosamente um texto inovador com coesão, coerência, sentido... ?



           Independentemente da disciplina lecionada, é primordial que o docente tenha capacidade de sentir empatia por seus alunos, ou seja, que consiga se colocar no lugar deles e ajude-os a se libertar de seus temores, de sua  ansiedade e mostrar-lhe que é possível errar e ousar, pois essa é a única forma de descobrirem seu pleno potencial.

            Infelizmente, percebo que grande parte daqueles com diploma de mestre não se permitirem cruzar a barreira do mero professorado e se imbuir do papel de educador: “aquele que nutre, cuida , instrui, ajuda a dar forma”.



            Você professor, pode estar a questionar: “Mas e nossas condições de trabalho, e quanto aos nossos salários, e os alunos que não nos respeitam?”. Sim, as condições sob as quais trabalhamos são terríveis. Sou da época em que o professor era incensado e prova disso são minhas alunas de uma faculdade da terceira idade que ao final da aula me aplaudem. A primeira vez que isso aconteceu fiquei à beira das lágrimas. Mas, isso justifica o se limitar a dar aulas expositivas, conteudistas que inibam o exercício do livre pensar e priorizem a capacidade de memorizar fórmulas e conceitos? Se houver ao menos um indivíduo em sua sala de aula disposto a transformar informação em conhecimento, este terá valido seu esforço, o idealismo que deveria ter. Quando dava aulas de alongamento em uma escola de dança, uma de minhas alunas mal conseguia se sustentar sobre os pés. Hoje ela é uma grande executiva e sempre diz que isso se deve ao fato de ela ter, quando adolescente, percebido que conseguia se equilibrar sobre as próprias pernas.

            Enche-me de tristeza saber que, por vezes, para conseguir dar uma aula meus alunos terão de ter medo de mim em vez de respeitar-me. Isso me remete à nossa cultura na qual as leis têm de ser rígidas para serem obedecidas; a nosso povo, que, em sua maioria, só se dobra frente à repressão, à coerção, à punição.

            Sofro ao perceber que conceitos básicos como ética, cidadania, cooperação, hoje pouco valor têm.

            Sofro ao perceber que os alunos interessados em aprender, desejosos por evoluir, sejam ridicularizados, intimidados e excluídos pelos “terroristas”.



            É lugar comum entre os docentes culpar os pais pelo comportamento inadequado dos alunos e dizer que quanto a isso não há nada a fazer. São os pais que não estabelecem limites, que delegam à escola o papel que lhes caberia, que pouco se importam com a formação dos pequenos... Concordo com os professores em gênero, número e grau. Mas é possível mudar essa situação? Duvido. Ela só tende a piorar.

            Portanto, cabe a nós pensar o que é possível fazer face a tal situação.

Qual deve ser nossa postura perante adolescentes que se expressam por meio da agressividade, do barulho; que não sabem ter uma atitude responsável quando a liberdade que tanto demandam lhes é oferecida?

            Mandar um aluno para fora da aula faz com que me sinta incompetente, por isso hesito. Na última vez em que me deparei com uma situação incontrolável, preferi sair e chamar a coordenadora a dar a poucos, que impediam o aprendizado de muitos, o gosto de se sentir vitoriosos.

            Infelizmente, o comportamento desses alunos é um reflexo de uma sociedade permissiva, na qual apenas a punição, e não a conscientização tem voz.
            Espero que meu desabafo encontre ressonância em alguns, não necessariamente em todos.

            Sei que a maioria dos professores continuará a cumprir com sua obrigação, de acordo com os ditames, apenas para preservar sua fonte de renda: sem consciência, sem ética, sem desejo.

            Mas, para aqueles que preservam em si algum idealismo e continuarão a exercer seu ofício com a dedicação que ele requer, desejo toda a sorte do mundo.



            Em minha opinião não há nada mais gratificante do que ter a capacidade de transmitir a alguém que há um caminho nobre a seguir no escuro horizonte que a nós se apresenta.  

            Não pensem, no entanto, que me dei por vencida, pois como já dito pelo escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano:


" Muitas pessoas pequenas, em lugares pequenos, 
fazendo coisas pequenas, 
podem mudar o mundo"

Eduardo Galeano

Inspirada em um colega, acabei de criar um blog dedicado à produção de alguns de meus alunos.Passaremos a nos reunir semanalmente em uma "Oficina de Redação Criativa" - durante a qual os textos criados serão trabalhados - e juntos escolheremos quais devem ser publicados, tendo como parâmetro a proposta apresentada em cada um de nossos encontros.

Tudo feito em um processo extremamente democrático.

Democracia se constrói, se exercita, se exerce.

Nosso objetivo, no momento, é conseguir uma editora disposta a publicar nossa produção.

            Alguém se habilita?  

Beijos educativos,
Cláudia Coelho

     

sexta-feira, 19 de julho de 2013

NOVELAS E ESTEREÓTIPOS

Tudo é exacerbado,
tudo é hiper,
tudo é fake,
tudo é...



Não sou noveleira, já fui; de carteirinha – mas já há algum tempo elas começaram a me irritar – isso não quer dizer que vez por outra eu não assista a um capítulo para não me sentir alienada e sem assunto quando estou em uma roda de conversas e o tema é o último capítulo da novela X, Y ou Z. Gosto de pelo menos saber o nome das personagens principais e seu perfil para poder dar algum pitaco. Afinal de contas as novelas são uma instituição nacional, produto de exportação, cuja proposta seria retratar nosso cotidiano. Mas será que elas atingem seu intento? Creio que não. O que observo é um retrato estereotipado de nosso país, de nossa gente, de nossa realidade.



As tramas, de modo geral, apresentam um mundo dividido em apenas duas classes sociais. A primeira, a dos abastados, vivendo em mansões decoradas com móveis inspirados em alguma novela de época, estilo rococó – ou apartamentos “modernóides”, como no caso de Salve Jorge em que todos tinham o mesmo tipo de porta de madeira. Chegaram a reparar? Quase liguei para a Globo para perguntar o nome do marceneiro. A  segunda classe é a dos menos favorecidos que, via de regra, vivem no subúrbio e são retratados normalmente de forma caricata e preconceituosa: pessoas que falam alto demais, cujas refeições em família são sempre motivo de discussões acaloradas, sem esquecer que o bonitinho do clã dos pobres, quase sempre conhece, de modo inusitado, a bonitinha do núcleo dos abastados. Eles se apaixonam de imediato e após muitas idas e vindas; quase sempre causadas por “intrigas da oposição” - a família rica ou um amante rejeitado que, avesso ao romance emprega todos ardis possíveis para separá-los – ficam juntos no final da trama e o “bem” prevalece. 




No último capítulo o galã e a estrela inevitavelmente se casam em uma igreja católica, como manda o figurino - ela, de véu e grinalda; ele, de fraque, (nada contra os católicos, isso é apenas uma constatação), e após o padre declará-los "marido e mulher", beijam-se, saem correndo pela porta, sob uma chuva de arroz, dando todos os indicativos de que viverão felizes para sempre, sem uma rusga sequer. 

E o que dizer do sotaque “italianado” dos suburbanos, caso a novela se passe em São Paulo e do “carioquês” - tão sibilante que chega a incomodar - no caso de ela ter como centro o Rio de Janeiro.

Ah! lembrei-me de algo muito importante. As etnias. Você já viu algum japonês, chinês, javanês, etc. presidente de empresa? Não me recordo de nenhum (se minha memória estiver falha, por favor, me ajude). E os negros? Foram promovidos do status de serviçais, como eram, comumente, retratados, para os de amigos ou amigas dos protagonistas - sempre brancos, sempre lindos, quase sempre louros, quando muito com cabelos castanho claro.







O que mais me incomoda, no entanto, é o perfil psicológico das personagens – não há meio termo. Há aquelas que são boas demaaaais, tão crédulas que chegam às raias da idiotice e os maus - psicopatas de “último grau”, sem qualquer escrúpulo ou consciência: vide o contraste entre Tufão e Carminha, de Avenida Brasil e mais recentemente, Félix e Bruno, de Amor à Vida. 




Ademais, o mal é de modo geral ligado à ambição desmedida como se almejar crescer, melhorar de vida fosse algo do “maligno”, conseguido apenas por meios escusos; e o bem, atrelado à ideia de resignação, ao viver “simplório”, este de modo geral, incensado; pois, queiramos ou não no capítulo final os “bons” são sempre recompensados e os maus “punidos”. Não há meio termo, não há contrapartida, não se concebe o evoluir por meios lícitos.







Tenho a impressão de que mais do que retrato de nossa realidade, as novelas, hoje, são estertores da moral e dos bons costumes.

Dificilmente vê-se uma personagem tendo uma "crise de consciência" que dure mais do que cinco minutos, retratando “gente como a gente”, vivendo conflitos existenciais e retratando alguém que acorde cedo para trabalhar, não por carregar um fardo, mas para realizar algo que o satisfaça. Reparou na vida dos casais ricos retratados nas novelas? Poucas mulheres trabalham e as que o fazem é por por mero divertimento a fim de manterem-se ocupadas entre um chá entre amigas à beira de uma piscina e outro; ao passo que aquelas que não tiveram a mesma sorte, sofrem para trazer o pão nosso de cada dia para o lar, de modo geral, exercendo uma tarefa meramente mecânica, que em nada as satisfaz - vide Charles Chaplin em "Tempos Modernos". 




É óbvio que há exceções, mas essas são tão poucas que dão a impressão de a personagem em questão ter algum distúrbio ou transtorno de personalidade, inclusive por ser, de modo geral,  taxada de “estranha” e pichada de inocente e alienada pelo restante do núcleo.

Meu desabafo não quer dizer que não mais assistirei a novelas. Afinal, elas fazem parte de nossa cultura e servem como escape da, às vezes, tão dura realidade - um momento durante o qual ocupamo-nos da vida do outro e, por conseguinte, deixamos de lado a nossa. 

Para a grande maioria, não há melhor lenitivo do que uma hora de discussão sobre o nada... do que uma hora  em que se pode dar vazão ao voyeurismo ... uma hora de alienação (mas isso é assunto para um próximo post).  

As novelas, hoje, tomaram o lugar dos folhetins de antigamente, a diferença está no fato de alguns desses terem se transformado em obras de arte de nossa literatura, e de aquelas logo caírem no esquecimento, assim que a próxima tenha início. 

Não poderia deixar de citar as novelas de rádio, que além de terem sido o berço de grandes atores, como Lima Duarte, à época mobilizavam multidões que paravam seus afazeres para acompanhá-las e discutir o desenlace da trama.

Novelas são efêmeras, passageiras, transitórias, assim como tantos outros produtos da Sociedade do Vazio, em especial relações pessoais dominadas por um jogo de gato e rato.  São construídas com base na aparência, em clichês, em ideias preconcebidas, em falsas generalizações. Retratam uma visão de mundo estereotipada, ou seja, uma felicidade sem lembranças - um termo que adoro. Uma felicidade que não se sustenta, pois, na realidade, não passa de um mero momento de gozo fabricado.




Cláudia Coelho
PAUSA PARA REFLEXÃO

PS: Não deixa de ser significativo o fato de as personagens ditas “do mal” hoje fazerem mais sucesso perante ao público do que as “do bem”.Qual o motivo de tal fascínio? Aguardo sua resposta nos comentários de meu post, afinal ainda não a encontrei. 




A foto acima não caberia perfeitamente na apresentação próxima novela das 21h00?